Medir uma mesa, uma estrada ou uma costa
Poucas tarefas parecem tão diretas como descobrir o comprimento de alguma coisa. Para medir uma mesa, usamos uma fita métrica. Para determinar a distância percorrida entre duas cidades, podemos conduzir de uma até à outra e observar a diferença no conta-quilómetros.
Também podemos recorrer a um mapa, medir um percurso com uma régua e usar a escala para converter centímetros em quilómetros.
Medir uma linha de costa, porém, é mais complicado. O resultado depende do comprimento do segmento utilizado para acompanhar o seu contorno. Em geral, quanto menor for esse segmento, maior será o comprimento obtido.
É esta relação que está na origem do chamado paradoxo da linha de costa.
Uma régua grande passa por cima dos pormenores
Como tantas formas que encontramos na natureza, as costas são irregulares e recortadas. Têm baías, enseadas, promontórios e pequenas entradas de água que nem sempre aparecem quando as observamos à distância.
Uma régua comprida liga pontos afastados e deixa muitos desses recortes pelo caminho. Uma régua mais curta consegue acompanhar melhor o contorno, entrando em lugares que a anterior tinha atravessado em linha reta.
A costa não mudou. O que mudou foi a quantidade de pormenor incluída na medição.
Ao somar esses pequenos desvios, chegamos a um comprimento maior.
Quanto mais perto olhamos, mais há para medir
Vista de um satélite, uma extensa linha de costa pode parecer relativamente suave. Ao caminhar junto à água, porém, começamos a distinguir entradas de rios, pequenas línguas de terra e rochas.
Se nos aproximarmos ainda mais, aparecem irregularidades que antes passavam despercebidas. Cada mudança de escala revela novos contornos.
1. Uma baía
2. Uma pequena enseada dentro dessa baía
3. Um trecho rochoso dentro da enseada
Passamos dos quilómetros aos metros e dos metros aos centímetros. A unidade de medida encolhe, mas o percurso que tentamos acompanhar ganha pormenores.
É fácil perceber a dificuldade. Onde deve a medição parar? Devemos contornar cada rocha? Cada pequena saliência? E como definimos a linha exata onde a terra termina e a água começa?
Para obter um resultado útil, precisamos de estabelecer uma escala e um critério de medição.
Duas medidas para a mesma costa
O exemplo da Grã-Bretanha ajuda a visualizar o problema.
Numa aproximação com segmentos de 100 quilómetros, o comprimento obtido pode rondar os 2 800 quilómetros. Ao reduzir os segmentos para 50 quilómetros, a medição acompanha mais recortes e o total pode aproximar-se dos 3 400 quilómetros.
| Segmento utilizado | Comprimento aproximado |
|---|---|
| 100 km | 2 800 km |
| 50 km | 3 400 km |
Valores ilustrativos. O resultado depende da escala e do método de medição.
São valores ilustrativos do efeito da escala, e não um comprimento único e definitivo da costa britânica.
A régua passou a ter metade do tamanho, mas o resultado aumentou cerca de 600 quilómetros. Não apareceu terra nova. Passámos simplesmente a medir partes do contorno que a primeira aproximação deixava de fora.
Experimente: mude o nível de detalhe
Comprimento da linha: unidades do desenho
| Nível | Segmentos | Comprimento (unidades do desenho) |
|---|---|---|
| Grosseira | 8 | 947 |
| Intermédia | 32 | 1 056 |
| Detalhada | 256 | 1 301 |
Uma costa pode ter comprimento infinito?
Num modelo matemático de uma curva fractal, podem surgir novos pormenores por mais que se reduza a escala. Em certos modelos, o comprimento medido cresce sem limite à medida que os segmentos se tornam menores.
É daí que vem a ideia, à primeira vista estranha, de uma costa com comprimento infinito.
Nível 1
Nível 2
Nível 3
Uma costa real, contudo, não é um objeto matemático com pormenor infinito. Existem limites físicos e dificuldades práticas. A maré altera a posição da água, as ondas movem-se e o próprio terreno sofre mudanças.
O paradoxo não exige que uma costa real tenha um comprimento literalmente infinito. Mostra que a pergunta “quanto mede?” fica incompleta enquanto não dissermos como vamos medir.
A precisão também precisa de uma definição
A matemática permite medições de extraordinária precisão. Ao mesmo tempo, ajuda-nos a perceber quando aquilo que queremos medir não tem um contorno tão simples como imaginávamos.
No caso de uma mesa, diferentes réguas tendem a produzir resultados próximos. Numa costa muito recortada, a escala escolhida pode alterar bastante a resposta.
O paradoxo da linha de costa lembra-nos que medir não é apenas obter um número. É também decidir quais os pormenores que esse número deve representar.
